Estágios para que vos querem

Março 28, 2011

Todos os anos, jovens saídos da faculdade se deparam com a grande questão: “E agora, o que é que vou fazer?” A estrada de tijolos dourada que nos pintaram no 12º ano, com a importância de ser um/a Senhor/a Doutor/a desvaneceu-se logo no primeiro ano de faculdade, agora é inexistente. Primeira opção: procurar um estágio, para ganhar experiência prática do que se aprendeu. Para alguns é mais fácil que outros, a área das artes e das ciências sociais é uma aventura encontrar algo não-exploratório. Sou formada em Relações Internacionais, o que basicamente dá para todo o tipo de gabinetes autárquicos, organizações não-governamentais, empresas de exportação, bolas, até dá para ser Ministra dos Negócios Estrangeiros, que, em Portugal é dos poucos cargos não fulminados pela opinião pública. A questão é que não sou filiada em nenhum partido político, tenho fortes opiniões e não sou do género de pessoa/máquina. Gosto especialmente do facto da maioria das licenciaturas de Ciências Sociais em Portugal não terem um emprego correspondente. Não existe a profissão para Relações Internacionais, só para Chefe de gabinete de Relações Internacionais e Ministro. Enquanto não sou uma coisa nem outra, o que faço entretanto? A primeira e única vez que fui ao Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e perguntaram para que esse curso servia e, como não existe profissão, as minhas opções eram escolher entre “Funcionária da Administração Pública” ou “Consultora”. Fiquei como consultora, apesar de saber que nunca irão pegar no meu currículo se estão à procura de uma consultora e não de uma internacionalista, sim, esse nome existe. Enviei 1000 pedidos espontâneos de estágio a 1000 gabinetes diferentes resultaram em duas entrevistas, uma resposta ambígua e 5 respostas negativas. As palavras que a maioria das pessoas ouve no primeiro ano, para além do silêncio, após a licenciatura são: “Infelizmente, o seu perfil não se enquadra com o pretendido”, “não estamos a aceitar estagiários”, ” porque não tenta os novos programas de estágio do IEFP?”, “Acabamos de aceitar um estagiário, tente daqui a seis meses”, “Só aceitamos licenciaturas pré-bolonha ou mestrados pós-bolonha”. Os testes que nos colocam são igualmente frustrantes. Desde fazerem-nos esperar 30minutos pela entrevista, a testes de “qual é a sua cor favorita?”, a perguntas pessoais e dinâmicas de grupo. Quem tem sorte em conseguir estágio não remunerado ou curricular (palavra mais bonita que “estás a trabalhar de graça”), após seis meses volta à posição inicial, e ou recorre novamente aos ditos estágios curriculares de seis meses ou opta por outro rumo. Após seis meses de andar para trás e para a frente segui pela segunda opção: Mestrado. Depois de escaldada, resolvi escolher um mestrado, não por gosto, mas algo que as pessoas soubessem identificar e houvesse um mínimo de procura. A escolha não é difícil: engenharia, gestão ou economia. Engenharia era impossível, visto que cada vez que vejo uma fórmula mais elaborada fico como um burro a olhar para um castelo ou neste caso, se estivesse numa tela, seria uma forma de arte abstracta para mim. Gestão serve para tudo mas quando começo a ver que os mestrados mais valorizados nessa área eram de 10 000 euros para cima a minha carteira ganhou pernas e começou a fugir de mim. Restava a Economia, sozinha e abandonada, rejeitada pela maioria como algo pouco apelativo mas necessário, um “dirty work”. Os preços de mestrados são absurdos, 3000, 4000, 15 000 euros, quanto mais caro mais garantias se tem de conseguir emprego. “Isto é a situação actual do jovem português ou paga para trabalhar, porque mesmo os estágios não remunerados englobam despesas de transporte e alimentação, ou paga para conseguir um emprego”. E com este pensamento embarquei na área da Economia Portuguesa, coisa que muitos dos meus amigos me perguntaram se era masoquista pois economia foi das cadeiras de licenciatura que mais me custou a passar, mas não. Sou somente realista e não fiz um esforço, juntamente com os meus pais, de milhares de euros durante quatro anos para ir trabalhar para a caixa do supermercado, telemarketing ou cadeia de fast-food. Essa era a opção número três: extremamente mal remunerados, com horários que assustam qualquer um e facilmente descartados, porque jovem a precisar de emprego há muitos.

Entre comunicados de governo a prometerem estágios que não chegam a 5% da população jovem licenciada à procura de primeiro emprego, tentativas falhadas e desilusões dos jovens e famílias que apostaram no futuro dos seus filhos, estágios de “usar e deitar fora” onde o trabalho não remunerado é usado como forma de aliviar os gastos das empresas em contratações, ao agravar da situação económica, com FMI e mais desemprego. Se isto acontece-se só em Portugal, mas com empresas estrangeiras a limitarem os cargos a pessoas com experiência prévia em funções e com preferência pelos seus nacionais o mais provável é a população portuguesa, com qualificações ou não, virar operador de caixa ou telefonista. Há sempre a opção do empreendorismo, mas ou somos a Ciderela e temos uma fada madrinha espectacular para nos ajudar no inicio ou simplesmente abrimos o guarda-chuva e esperamos que este tempo passe.

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